Entrevistas

“Nosso trabalho é fazer com que pessoas se sintam representadas” [Entrevista com fundadores da Nude]

Nude seu tom | Imagem: Acervo pessoal

A relação entre corpo e autocuidado requer harmonia e apoio. Trata-se do ato se reencontrar, se amar e se autopreservar. Mas, tal equilíbrio não é simples de encontrar e exige uma revolução interna. Conheça a Nude, um espaço para reconexão de pessoas negras a partir de três pilares: corpo, mente e conexões. Sua beleza importa!

Criação da marca

A ideia da marca Nude reuniu esforços de quatro pessoas: a Adrivania Santos – com afinidade no mercado de moda e beleza, atuava na equipe de comunicação de um instituto que pauta questões raciais, quando decidiu empreender criando uma marca com propósito de falar sobre beleza e autocuidado com um olhar racializadoAndrii Mishchenko, Lucas Henrique e Najla Souza. “A ideia foi abraçada, ganhando cada vez mais forças com as contribuições de cada área. Foi quando pensamos: Por que não criar um negócio para nós?”, revelam os fundadores.

“Hoje, Andrii, que é engenheiro e especialista em desenvolvimento de software e atuava no setor público, está à frente do departamento de Tecnologia da empresa. Najla é Gestora de Recursos Humanos e já empreendia com uma loja de produtos pessoais quando surgiu a ideia da Nude, logo resolveu se dedicar ao novo empreendimento. E Lucas Henrique, que também é formado em Gestão de Recursos Humanos e estava trabalhando como motorista de aplicativo, viu na proposta uma oportunidade de crescimento, na hora topou apostar no desafio“, finalizam.

Beleza negra

Um clube de autocuidado | Imagem: Acervo pessoal

Não é de hoje que a beleza negra não se reconhece na indústria de cosméticos, que sempre deixou a desejar para boa parte dos consumidores. “Pensar em um clube de autocuidado com produtos específicos para pessoas negras partiu do incômodo pessoal de não encontrar referências para nossos cabelos e peles em qualquer farmácia ou outros clubes de beleza. Mas, após muitos estudos e pesquisas, entendemos que o problema não era uma particularidade nossa ou da nossa bolha social, mas sim da maioria das pessoas negras, e então identificamos um mercado pouco atendido pelas grandes marcas”, compreendem.

As pesquisas realizadas trouxeram dados impactantes e decisivos. “Um estudo de 2020 feito pela Avon, que hoje é uma das empresas parceiras da Nude, revela que 70% das mulheres negras estão insatisfeitas com as maquiagens que estão à venda no setor atualmente. Para nós, ignorar esse fato é como ignorar a maioria da população brasileira, que é predominantemente negra. Por isso, nosso foco é entender a fundo esse mercado, os consumidores e saber, de fato, o que eles precisam. Parte do nosso trabalho é fazer com que pessoas se sintam representadas como parcela importante do mercado, e não apenas um nicho que ganha alguns serviços e produtos ‘especializados’“, conclui a equipe.

Sobre propósito

A Nude vai além | Imagem: Acervo pessoal

A marca foi criada com um propósito muito estratégico. “Por um lado, nosso foco é entregar uma rotina completa de beleza para pessoas negras, com os melhores produtos que sejam específicos para elas, e com uma rede de troca de experiências e apoio para conectá-las aos rituais de autocuidado. Mas por outro lado, acreditamos que a partir de um olhar racializado podemos gerar dados que auxiliem as empresas na construção de produtos, formulações e também um discurso alinhado com a realidade brasileira para criar relações sólidas com esse público”, dizem, pensando em alinhar o propósito atual a projetos futuros.

Mas, a intenção da marca não para por aí. “Sempre falamos que não criamos a Nude apenas para que pessoas negras sejam representadas em comerciais e anúncios. Queremos fazer parte de toda essa cadeia de produção e trazer nossas assinantes para essa construção. Representatividade é ótimo, mas precisamos ir além“, afirmam.

Mercado brasileiro de cosméticos

O Brasil é o quarto maior mercado de beleza e cuidados pessoais do mundo, ficando atrás apenas de Estados Unidos, China e Japão. “Ao contrário de vários outros setores da economia que tiveram queda durante a pandemia, o mercado de beleza só continua crescendo. Estudamos muito esse mercado e pesquisas recentes da agência Corebiz registrou um crescimento de 68%, entre março e  junho de 2020, na comparação com o mesmo período de 2019. E esse é um dado muito promissor para nós. As pessoas estão ficando cada dia mais em casa e dando mais atenção aos rituais de beleza e autocuidado – lembrando que a Nude já surgiu durante a pandemia de covid-19, então toda a estrutura é adaptada aos processos dessa nova realidade“, analisam.

Mas, existe um contraponto. “Por outro lado, por mais que as mulheres negras sejam a maioria da população brasileira e a base da economia,  sabemos que a pandemia aumentou a desigualdade no país e a população negra foi a mais afetada economicamente. Então, consideramos também esse cenário na hora de criar preços que levam em consideração as condições socioeconômicas desses assinantes para conseguir levar autocuidado para mais pessoas”, reconhecem.

A Nude luta pela igualdade | Imagem: Acervo pessoal

Apesar dos pesares, os resultados vêm mostrando que os esforços estão ganhando cada vez mais alcance. “Já imaginávamos que a falta de produtos específicos seria uma dor muito grande das pessoas negras, pois tínhamos uma lista de espera ansiosa pelo lançamento, mas os resultados nos surpreenderam. Tivemos assinatura de pessoas tão diferentes entre si, e isso foi incrível. Para se ter uma noção, temos casos de mães que assinaram para filhas de 9 anos, mas temos também pessoas com mais de 60 anos entre as assinantes. Por um lado é muito gratificante ver a nossa ideia sendo recebida com tanto carinho, mas por outro lado é frustrante ver que em 2021 essas pessoas ainda não encontram produtos específicos para suas peles e cabelos. Mas tudo isso incentiva cada vez mais nosso trabalho e dedicação ao negócio”, admitem os sócios ao analisarem o posicionamento da marca.

Nude e Printi

A Printi abraça causas e com a Nude não poderia ser diferente. “Ter o apoio da Printi foi essencial para conseguirmos tirar a ideia do papel e transformar a Nude em algo real. Tivemos uma preocupação muito grande em toda a cadeia de fornecedores e parceiros, pois queríamos trazer em nossas caixinhas apenas empresas que estavam com o discurso, posicionamento e ações alinhadas com o nosso propósito e a Printi foi uma dessas marcas”, alegam.

Embalagens limitadas Nude em parceria com a Printi | Imagem: Acervo pessoal

É importante que a mensagem que os fundadores construíram ao lado das assinantes seja disseminada e receba o devido reconhecimento. “Ter empresas interessadas em apoiar propostas com recorte racial é o primeiro passo de um longo caminho que precisamos percorrer para que pessoas negras não sejam tratadas pelo mercado apenas como um nicho. São mais de 100 milhões de pessoas que, além de serem representadas, precisam ser reconhecidas como a maioria dos consumidores do Brasil”, reforçam os integrantes.

Dicas

Nem sempre empreender é um processo linear para todas as pessoas. “Quando pensamos em negros, por exemplo, o empreendedorismo surge mais por necessidade que por vocação ou oportunidade. Por isso, não adianta falarmos ‘largue tudo e siga os seus sonhos de empreender’, porque para a maioria dos brasileiros isso não é viável”, ressaltam.

Mas, se empreender está entre seus objetivos, você deve insistir e ter um propósito traçado. “Nosso maior conselho é: entenda as suas necessidades e principalmente as suas habilidades. Uma ótima forma de fazer isso é criando um protótipo funcional para testar como a sua ideia será aceita pelo mercado e quais são as oportunidades. Só assim você vai ter dados suficientes para entender se o seu negócio vai ser uma lojinha nas redes sociais que vende para as pessoas do bairro ou um e-commerce que atende o país inteiro”, recomenda o time de empreendedores.

“E por último, mas não menos importante: Estabeleça conexões e tenha uma rede de fornecedores que promovam cultura e políticas alinhadas com as do seu negócio. Procure por empresas que entendam a importância de fomentar parcerias para criar um ecossistema de empreendedorismo que seja benéfico a todos. Como diz um provérbio africano ‘Se quer ir rápido, vá sozinho. Se quer ir longe, vá acompanhado’”, finalizam.

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Maryene Oliveira

Apaixonada pelo mundo da comunicação, uma futura radialista movida por dança, literatura, desafios e ideias mirabolantes.
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