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Entrevista com Rô Aragão [Curadoria de Projetos de Design] #15

Ilustrações de Rô Aragão | Imagem: Acervo pessoal

Rô Aragão nasceu há quase 23 anos na capital sergipana, Aracaju. Filha de dona Alda e seu Roberto, desde 2016 cursa Psicologia na Universidade Federal de Sergipe e tem encontrado no processo de ilustrações um dos muitos caminhos para expressar sua identidade. Venha mergulhar no universo da artista nesse papo que é pura inspiração!

Rô Aragão | Imagem: Acervo pessoal

Sobre arte

Delirando em desenho ilustração pintura performance palavra…

Olho d’água | Imagem: Acervo pessoal

Nos últimos anos, Rô tem explorado a arte de ilustrar. “Só me dei conta disso há poucos meses. Eu costumava dizer que meu primeiro contato com a arte tinha se dado no início da minha adolescência, ali por 2012. Mas minha mãe e sua mãe, sendo as costureiras que são, e meu pai e seu pai, sendo os pedreiros que são, me envolveram com a arte de seus ofícios antes mesmo que eu pudesse perceber. Vô Jaime costurava artigos de couro, vó Osvaldina gostava de bordar. Hoje eu percebo que nada disso morreu com eles”, se orgulha.

Sendo assim, o (re)encontro com a arte aconteceu naturalmente. “No meu ensino médio, quando entrei em contato com manifestações artísticas diversas a partir dos movimentos de ocupação de espaços urbanos aqui na cidade, comecei a entender que a arte me envolvia desde sempre, pois estive cercada de pessoas que a faziam acontecer. Essa arte em minúsculas, que ninguém enxerga, que ninguém chama de arte. Desse momento até aquele no qual me entendi e me autorizei enquanto artista, passaram-se anos. E continuam a passar”, suspira.

Os incentivos não pararam por aí. “Me inspira tudo aquilo que me afeta. Tudo aquilo que cotidianamente se insere em meu caminho. O chão onde meus pés pisam, a raiva que sinto e com a qual não sei lidar, a tristeza e a alegria que preenchem os meus vazios. Me inspiro nos meus próprios vazios. Na imagem de vó Glorinha debruçada na janela do quarto me revelando a sua paixão por cravos brancos ao me ver cuidar das plantas. Ou na lembrança do primeiro sorriso de minha sobrinha. Me inspiram as relações que construí com aquelas com as quais compartilho os meus passos, estando na cidade ao lado ou a dois mil quilômetros de distância. A história daqueles e daquelas que todos os dias se reinventam pra não sucumbir às lógicas de mortificação impostas pelo Estado. Me inspiro na rua e na arte de pichar que em suas paredes falam. No fazer coletivo em suas possibilidades e limitações“, finaliza.

Ainda sobre arte, a Rô tem uma relação muito especial com esse universo criativo. “Pra mim, arte é tudo. Mas é só mais uma coisa, não vou mudar o mundo com ela e nem pretendo. No entanto, com ela presenciei momentos suficientes pra entender que, por mais rápidos que sejam, por mais efêmeros, por mais imperceptíveis, alguns deles nos permitem vislumbrar um mundo outro. Acredito em seu potencial de comunicação e nele aposto. Só não pretendo deixá-la me cegar. Tem dias que o buraco é mais embaixo”, explica.

Do verbo errar

Entenderá meu olhar quem estiver disposto a se contentar com a ausência de respostas.

Obra sem título | Imagem: Acervo pessoal

Sabe quando você vai em uma exposição, fica observando as obras e quando se dá conta já se passaram horas? Normalmente, tentamos entender qual a mensagem que o autor quis passar, o que não sabemos é que não ter respostas já é em si um achado, o ato de tentar é a resposta, como reflete a Rô. “Se existirem mensagens no meu olhar, que elas o componham ou o fissurem, não se escondam por trás dele. Entretanto, se eu precisasse elencar alguma coisa a ser dita, seria a do verbo errar em seu modo imperativo. Erre. Acertos não produzem desvios. Não tô defendendo uma romantização do erro como fuga de responsabilizações, viu? Tô falando do movimento de entendê-lo enquanto possibilidade e acreditar em seu potencial de criação. Há algo no erro que nos expõe à indeterminabilidade, sabe? Nem para o bem nem para o mal, mas para o que se situa entre um e outro, nos faz vulneráveis, nos exige invenções. Errar é vagar, caminhar sem destinos pré-estabelecidos. Certamente não é fácil, mas ninguém disse que seria”, justifica.

“Minha arte conta do que atravessa meu corpo, do que rasga minha existência, que é coletiva, sim, mas não representável. Prefiro não colaborar com lógicas de produção e consumo pautadas numa ideia de representatividade que por si só não leva ninguém a lugar nenhum. Uma vez me perguntaram se eu me dedicava à uma escrita trans, se eu produzia arte queer. E eu ri um tantinho, porque eu acho que toda e qualquer experiência de toda e qualquer pessoa é uma escrita, sabe? Eu me dedico à uma escrita. Ponto. Produzo arte e recuso esses recortes, tô cansada deles”, compartilha a estudante e artista.

Já voltando-se à escrita, a Rô evidencia características únicas que constroem sua visão artística. “Minha escrita se faz travesti mais porque a travestilidade dispõe o meu corpo e menos porque eu busque fazer dela a escrita de uma causa. Escrevo sobre os afetos que experimento no contexto das possibilidades que me circundam e me transpassam e, nesse sentido, não pretendo que nenhuma travesti traduza as coisas que penso ou ilustro ou escrevo em suas experiências particulares, nossas trajetórias não são as mesmas e não precisam ser. Nem sempre sentimos as mesmas dores apesar de compartilharmos experiências semelhantes de adoecimento e, apesar de sermos constantemente encarceradas em individualidades patológicas, nossas singularidades não são menos coletivas. Eu escrevo nelas e elas escrevem em mim. Não somos uma causa“, assegura.

Processos

Dentro dessa composição de dias que chamamos de vida, a Rô se encontrou em processos. “Todo ponto de partida é partida de múltiplos pontos. As pistas que componho são mais significativas que os seus supostos estopins. Isso tudo sempre fez parte de um processo tão gradativo que eu, de fato, acredito que o estopim nunca foi, sabe? Ele ainda é. Não ocorreu no passado e tem sido todos os dias. Foi quando decidi sentar pra me dedicar a um desenho pela primeira vez, lá em 2016. Foi quando vislumbrei a ilustração digital, em 2017, num aplicativo de celular e dois anos depois retornei a ele pra passar madrugadas inteiras desbravando softwares. Foi pouco antes do carnaval do ano passado, quando sentamos, eu e Fábio Aricawa, pra pensarmos as ilustrações e o que mais exigia a identidade visual que desenvolvemos pro terceiro bloquinho de carnaval do inferninho. E foi ontem quando parei diante de uma obra na qual tô trabalhando e me deixei perder no meio dos materiais. Mas diria também que não sou, necessariamente, encantada pela ilustração… sou muito mais seduzida pelos processos, quer eles resultem em ilustrações ou não“, revela.

Arte em fotografia de Negalê | Imagem: Acervo pessoal

E são tantos processos envolvidos… “Eu costumo ficar calada quando tenho coisas a dizer, sabe? O desenho ou a ilustração ou a pintura ou… tem sido as formas que diariamente encontro de lidar com aquilo que precisa sair mas não consigo verbalizar. Não como tradução do que eu sinto, mas como a própria construção do sentir aquilo que me rasga. Me entendo e me desentendo com lápis e papel, amadureço as decisões que tomo com tinta e corante, penso o que engulo ao riscar superfícies. É o meu jeito de pensar com todos os meus 1,78 m de altura, de inscrever corporalmente os meus processos de desaprendizado, de estar à altura do que me acontece”, afirma.

Ilustrações e palavras

Desenho palavras e escrevo ilustrações.

O estado natural do corpo é a queda livre | Imagem: Acervo pessoal

As artes passeiam entre ilustrações e palavras, respectivamente de modo expressivo e intenso. “Pra mim, as duas coisas se fazem a mesma coisa enquanto são diferentes. Ou fazem-se diferentes enquanto são a mesma coisa. Surgem juntas ou se agenciam em algum ponto dos processos. Atrelar uma à outra não é um ato tão voluntário, sabe? Pelo menos não na maioria das vezes”, explica.

Sendo assim, a relação entre ambas se construiu de forma extremamente espontânea, tal como conta a criadora. “Olhando um tantinho atrás, diria que a escrita me sacudiu um pouco antes, inclusive. Antes de ter me percebido arriscando traços, me deixei rabiscar palavras. Fui trocando uma pela outra, mas quando me dei conta que tinha parado de escrever pra desenhar, caiu a ficha que antes da palavra escrita ou do desenho vem o risco. Desenho ou palavra é atrito e é isso que me interessa”, compreende Rô.

Incrível, né? Se você assim como a gente se tornou ainda mais fã da Rô depois dessa entrevista, acompanhe de perto o seu trabalho pelo insta @errrrrrr.e. 🙂

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Maryene Oliveira

Apaixonada pelo mundo da comunicação, uma futura radialista movida por dança, literatura, desafios e ideias mirabolantes.
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